domingo, 7 de março de 2010

Saudade de Antônio Melo

Meus amigos costumam fazer graça comigo, insinuando que pelo fato de ser funcionário público eu supostamente “não faço nada”, puro folclore, já que pertenço à classe de trabalhadores que ingressaram no serviço público por meio de concurso e que não “caíram de para quedas” na repartição. Não sou apadrinhado político e para receber meu pagamento no final do mês, tenho que comparecer ao serviço todos os dias, como faço há quase quinze anos! E tem mais, nem sempre minhas atividades remuneradas foram exercidas como hoje, numa simpática sala com computador e ar-condicionado...

Outro dia no centro da cidade, vi um garoto caminhando ao lado de um senhor que usava óculos e bengala, segurando-o pelo braço, o que me fez lembrar de minha própria infância e daquilo que viria a ser o início de minha carreira profissional. Quase ninguém sabe, mas meu primeiro emprego foi na antiga feira de Camaçari, que nem de longe lembra o 'moderno centro comercial' de hoje. Eu vendia coco seco numa banquinha de madeira, em frente à loja da Cesta do Povo, entre o açougue e a ala dos caranguejos e frutos do mar.

Todos os sábados, acordava às 6:30 da manhã, vestia uma calça jeans de listras pretas compradas na “Casa Rosângela” do saudoso “Seu” Lopes, uma camisa colorida de botões brancos e gola vermelha e seguia para o ponto do ônibus da Justiça do Trabalho, para esperar o dono da banca juntamente com a mercadoria, que vinha acondicionada em grandes sacos plásticos daqueles de açúcar, levados à feira de carrinho de mão.

Meu empregador se chamava Antônio ou Tonho, como era mais conhecido. Homem negro, baixo, magro e dono de uma personalidade ímpar. Cresceu como irmão de minha mãe e meus tios no distrito camaçariense de Jordão, mais precisamente na Fazenda Bom Jardim, onde todos nasceram. Na lida com ele, quando acabava o expediente, sempre antes das 14:00 horas, quando tinha que tomar o ônibus de volta para casa, todos os cocos já tinham sido vendidos às clientes já cativas e eu sempre voltava para casa contente com alguns trocados no bolso, cuja metade ficava logo numa banca de revistas no meio do caminho, onde comprava figurinhas de skate para colar no caderno e me entupia de sorvetes da Kibon.

Lá onde Tonho morava, ainda no Jordão, só que já na localidade chamada de Coqueiro, não tinha energia elétrica, água enganada, rede de esgoto ou pavimentação. Ainda assim ele vivia tranqüilo em sua casa construída ao lado de onde moravam sua mãe e seu padastro. Depois de um período ele deixou a banca de vendas na feira e voltou a negociar seus produtos no atacado ao mesmo tempo em que montou um pequeno comércio, e na comunidade onde não se tinha nada, ele vendia de quase tudo: carne seca, farinha, açúcar, feijão, arroz...

Quando não estava negociando na feira de Camaçari ou não estava em seu comércio, ainda desenvolvia outra atividade e era contratado pelos donos de terra da região para subir nos coqueiros, principalmente a noite para arrancar os frutos e limpar as árvores para a próxima colheita. Era também autodidata na viola e até compunha sambas de roda, com os quais ele mesmo se divertia ao cantá-los. Gostava de ouvir rádio e sabia qual era a programação de cada estação AM ou FM da Bahia. Era também bastante supersticioso e um az na matemática, mesmo sem ter ido à escola somava, multiplicava e dividia como ninguém, tudo de cabeça!

Toda a sua disposição para o trabalho e a peculiaridade das tarefas que ele exercia, passariam completamente despercebidas se não fosse por um detalhe: TONHO NASCERA CEGO DOS DOIS OLHOS! Ele nunca viu a luz do sol ou os lindos frutos dos cajueiros, jaqueiras e mangueiras que rodeavam o seu lar. Sequer teve a oportunidade de contemplar um fim de tarde naquele lugar tão bonito... Acontece que a deficiência nunca o impediu de viver, e quando ele deixou a venda de cocos no varejo eu não fiquei “desempregado”, passei a lhe emprestar durante um bom tempo os meus olhos. Ia com ele ao banco, ao supermercado e principalmente à feira, onde era sempre muito divertido ouvi-lo dizendo a mim que queria comprar camisas azuis, sem nuca sequer ter visto a cor azul! Vaidoso, gostava muito de perfumes e uma de nossas últimas conversas foi justamente ele me perguntando qual era o meu, pois tinha gostado e ia comprar um do mesmo.

Já mais velho, enveredei-me em outras atividades e Tonho passou a escalar garotos da própria comunidade onde morava para auxiliá-lo em seus negócios, gente que ele ajudava como a um filho, já que nunca foi pai ou se casou. Sempre que vinha à cidade, passava por minha casa para trazer produtos da roça para minha mãe, por quem ele sempre manteve verdadeira devoção e admiração.

Recuperando-se de problemas de saúde, chegou a morar conosco durante quase dois anos, e mesmo já o conhecendo desde criança, ainda ficava impressionado com sua habilidade para andar por toda a casa sem se bater com os móveis e pela forma como gostava de conversar consigo mesmo quando não tinha ninguém por perto. Costumava agir como se enxergasse e soltava pérolas, dizendo se a pessoa estava mais bonita aquele dia, só de ouvir a voz.

Na madrugada de 20 de setembro de 2006, dia do aniversário de 50 anos de minha mãe, Antônio da Conceição Melo, o nosso querido “Tonho Cego” (esse era seu apelido completo), faleceu. Partiu com mais de 60 anos e muitas histórias. Naquela manhã foi a última vez que vi os seus olhos, desta vez fechados para sempre. Seu coração doente não resistiu e perdeu a guerra que ele mantivera por toda a vida contra o maldito, mas lícito álcool.


Danival Dias





Publicado originalmente em 26/09/2008 no jornal Camaçari Notícias, disponível em http://www.camacarinoticias.com.br/leitura.php?id=42951